‎"O importante é que cada um possa deslumbrar-se com a história que o outro tem para contar."
Joana Cavalcanti

sábado, 19 de junho de 2010

Perdemos um dos grandes!


Faleceu ontem, 18/06 o escritor José Saramago.

Saramago nasceu em Azinhaga, no Ribatejo, de uma família de pais e avós pobres. A vida simples, passada em grande parte em Lisboa, para onde a família se muda em 1924 – era um menino de apenas dois anos de idade – impede-o de entrar na universidade, apesar do gosto que demonstra desde cedo pelos estudos. Para garantir o seu sustento, formou-se numa escola técnica. O seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico. Entretanto, fascinado pelos livros, à noite visitava com grande frequência a Biblioteca Municipal Central - Palácio Galveias na capital portuguesa.

Autodidacta, aos 25 anos publica o primeiro romance Terra do Pecado (1947), mesmo ano de nascimento da sua filha, Violante, fruto do primeiro casamento com Ilda Reis – com quem se casou em 1944 e permaneceu até 1970 - nessa época, Saramago era funcionário público; em 1988, casar-se-ia com a jornalista e tradutora espanhola María del Pilar del Río Sánchez, que conheceu em 1986, ao lado da qual continuou a viver até sua morte. Em 1955, começou a fazer traduções para aumentar os rendimentos – Hegel, Tolstói e Baudelaire, entre outros autores aos quais se dedicou.

Depois de Terra do Pecado, Saramago apresentou ao seu editor o livro Clarabóia, que depois de rejeitado, permanece inédito até a data de hoje, sendo que depois disso, o mesmo persiste nos esforços literários e dezenove anos depois – então funcionário da Editorial Estudos Cor - troca a prosa pela poesia lançando Os Poemas Possíveis. Num espaço de cinco anos, depois, publica sem alarde mais dois livros de poesia, Provavelmente Alegria (1970) e O Ano de 1993 (1975). É quando troca também de emprego, abandonando a Estudos Cor para trabalhar no Diário de Notícias, depois no Diário de Lisboa. Em 1975, retorna ao Diário de Notícias como director-adjunto, onde permanece por dez meses, até 25 de Novembro do mesmo ano, quando os militares portugueses intervêm na publicação (reagindo ao que consideravam os excessos da Revolução dos Cravos) demitindo vários funcionários. Demitido, Saramago resolve dedicar-se apenas à literatura, substituindo de vez o jornalista pelo ficcionista: "(…) Estava à espera de que as pedras do puzzle do destino – supondo-se que haja destino, não creio que haja – se organizassem. É preciso que cada um de nós ponha a sua própria pedra, e a que eu pus foi esta: "Não vou procurar trabalho", disse Saramago em entrevista à revista Playboy, em 1988.[2]

Da experiência vivida nos jornais, restaram quatro crónicas: Deste Mundo e do Outro, 1971, A Bagagem do Viajante, 1973, As Opiniões que o DL Teve, 1974 e Os Apontamentos, 1976. Mas não são as crónicas, nem os contos, nem o teatro os responsáveis por fazer de Saramago um dos autores portugueses de maior destaque - missão reservada a seus romances, género a que retorna em 1977.

Três décadas depois de publicado Terra do Pecado, Saramago retornou ao mundo da prosa ficcional com Manual de Pintura e Caligrafia. Mas, ainda não foi aí que o autor definiu o seu estilo. As marcas características do estilo saramaguiano só apareceriam com Levantado do Chão (1980), livro no qual o autor retrata a vida de privações da população pobre do Alentejo.

Dois anos depois de Levantado do Chão (1982) surge o trabalho Memorial do Convento, livro que conquista definitivamente a atenção de leitores e críticos. Nele, Saramago misturou factos reais com personagens inventados: o rei D. João V e Bartolomeu de Gusmão, com a misteriosa Blimunda e o operário Baltazar, por exemplo.

De 1980 a 1991, o autor trouxe a lume mais quatro romances que remetem a fatos da realidade material, problematizando a interpretação da "história" oficial: O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - sobre as andanças do heterónimo de Fernando Pessoa por Lisboa; A Jangada de Pedra (1986) - quando a Península Ibérica solta-se do resto da Europa e navega pelo Atlântico; História do Cerco de Lisboa (1989) - onde um revisor é tentado a introduzir um "não" no texto histórico que corrige, mudando-lhe o sentido; e O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) - onde Saramago reescreve o livro sagrado sob a óptica de um Cristo humanizado (sendo esta a sua obra mais controvertida).

Nos anos seguintes, entre 1995 e 2005, Saramago publicou mais seis romances, dando início a uma nova fase em que os enredos não se desenrolam mais em locais ou épocas determinados e personagens dos anais da história se ausentam: Ensaio Sobre a Cegueira (1995); Todos os Nomes (1997); A Caverna (2001); O Homem Duplicado (2002); Ensaio Sobre a Lucidez (2004); e As Intermitências da Morte (2005). Nessa fase, Saramago penetrou de maneira mais investigadora os caminhos da sociedade contemporânea.

O mesmo faleceu no dia 18 de Junho de 2010[3], aos 87 anos de idade, na sua casa em Lanzarote onde residia com a mulher Pilar del Rio, vítima de leucemia crónica[4]. O escritor estava doente há algum tempo e o seu estado de saúde agravou-se na sua última semana de vida.

Obra

Saramago foi conhecido por utilizar frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases (i.e. orações) ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores. Apesar disso o seu estilo não torna a leitura mais difícil, se os seus leitores se habituarem facilmente ao seu ritmo próprio.

Estas características tornam o estilo de Saramago único na literatura contemporânea, sendo considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. Em 2003, o crítico norte-americano Harold Bloom, no seu livro Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds ("Génio: Um Mosaico de Cem Exemplares Mentes Criativas"), considerou José Saramago "o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje" (tradução livre de the most gifted novelist alive in the world today), referindo-se a ele como "o Mestre". Declarou ainda que Saramago é "um dos últimos titãs de um género literário que se está a desvanecer".

Obras publicadas

Romances
Peças teatrais
Contos
Poemas
Crónicas
Diário e Memórias
Viagens
Infantil

Premiações

De entre as premiações destacam-se o Prémio Camões (1995) - distinção máxima oferecida aos escritores de língua portuguesa; o Nobel de Literatura (1998) - o primeiro concedido a um escritor de língua portuguesa.

Polémicas

A carreira de Saramago foi acompanhada de diversas polémicas. As suas opiniões pessoais sobre religião ou sobre a luta internacional contra o terrorismo são discutidas e algumas resultam mesmo em acusações de diversos quadrantes.

Críticas a Israel e acusações de anti-semitismo

Um caso que tem tido alguma repercussão relacionou-se com a posição crítica do autor em relação à posição de Israel no conflito contra os palestinianos. Por exemplo, a 13 de Outubro de 2003, numa visita a São Paulo, em entrevista ao jornal O Globo, afirmou que os Judeus não merecem a simpatia pelo sofrimento por que passaram durante o Holocausto… Vivendo sob as trevas do Holocausto e esperando ser perdoados por tudo o que fazem em nome do que eles sofreram parece-me ser abusivo. Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós. A Anti-Defamation League (ADL) (Liga Anti-Difamação), um grupo judaico de defesa dos direitos civis, caracterizou estes comentários como sendo anti-semitas. Segundo as palavras de Abraham Foxman, director da ADL, "os comentários de José Saramago são incendiários, profundamente ofensivos e mostram uma ignorância destes assuntos, o que sugere um preconceito contra os Judeus".

Em defesa de Saramago, diversos autores afirmam que ele não se insurgiu contra os judeus, mas contra a política de Israel, como, por exemplo, num artigo publicado a 3 de Maio de 2002 no jornal Público, onde, comparando o actual conflito com a cena bíblica de David e Golias, o autor diz que David, representando Israel, "se tornou num novo Golias" e que aquele "lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a "poética" mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinianos para depois negociar com o que deles restar".

Integração de Portugal numa Federação Ibérica

Em entrevista ao jornal Diário de Notícias em 15 de Julho de 2007, Saramago afirmou que a integração entre Espanha e Portugal é uma forte probabilidade e que os portugueses só teriam a ganhar se Portugal fosse integrado na Espanha, país no qual se auto-exilou (na ilha de Lanzarote) e que viu como seu a atribuição do Nobel da Literatura. [1].

A ida para Lanzarote conta mais sobre o escritor do que deixa transparecer a justificativa corrente (a medida censória portuguesa). Com o gesto de afastamento rumo à ilha mais oriental das Canárias, Saramago não apenas protesta ante o cerceamento, como finca raízes num local de geografia inóspita (trata-se de uma ilha vulcânica, com pouca vegetação e nenhuma fonte de água potável). A decisão tem um carácter revelador, tanto mais se se levar em conta que, neste caso, "mais oriental" significa dizer mais próximo de Portugal e do continente europeu.

Mesmo em dias de hegemonia do pensamento pró-mercado, Saramago guarda um olhar abrigado numa ilha europeia mais próxima da África que do velho centro da civilização capitalista. Sempre atento às injustiças da era moderna, vigilante das mais diversas causas sociais, Saramago não se cansava de investir, usando a arma que lhe coube usar, a palavra. "Aqui na Terra a fome continua, / A miséria, o luto, e outra vez a fome.", diz o eu lírico do poema saramaguiano "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" (do livro Os Poemas Possíveis, editado em 1966).

Cronologia da atribuição de um prémio Nobel

  • Setembro de 1997 - A agência publicitária sueca, Jerry Bergström AB, de Estocolmo, contratada pelo ICEP - (órgão estatal português para a promoção do comércio e turismo nacional), organizou uma visita de José Saramago a Estocolmo, incluindo:
  • Um seminário na Hedengrens, a principal cadeia de livrarias sueca
  • Discurso na Universidade de Estocolmo
  • Várias entrevistas a jornais, revistas e rádios suecas
  • Nesses mesmos dias, a televisão estatal sueca produziu um programa especial dedicado a Saramago
  • Outubro de 1997 - A Feira Internacional do Livro de Frankfurt tem neste ano Portugal como país em destaque
  • 10 de Dezembro de 1998 - Saramago recebe o Prémio Nobel em Estocolmo

Segundo o "Diário de Notícias", o director da empresa sueca Jerry Bergström AB afirmou: "Portugal nunca tinha tido um Prémio Nobel da literatura e uma parte da nossa missão consistia em mudar essa situação".

Comentando esta atribuição, Sture Allén, então secretário da Academia Sueca, negou que a decisão tenha sido afectada por "campanhas publicitárias, comentários de académicos ou escritores, ou qualquer outro tipo de pressão".

Contradizendo Allén, Knut Ahnlund e Lars Gyllensten, membros da academia afirmaram que seria ridículo afirmar que os membros da academia sejam "imunes a agências publicitárias".

Segundo o Dagens Nyheter haveria provas de que uma campanha semelhante foi organizada pela Alemanha.

Knut Ahnlund, membro da academia sueca, foi crítico da atribuição do prémio Nobel a Saramago, que segundo ele foi o culminar de uma campanha profissional de relações públicas.

Críticas a Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)

Na sua passagem por Roma em 14 de Outubro de 2009, Saramago chamou Joseph Alois Ratzinger, actualmente conhecido como Papa Bento XVI, de "cínico", dizendo que a "insolência reaccionária" da Igreja Católica precisa ser combatida com a "insolência da inteligência viva".[6]

De entre as suas principais declarações, estavam a de "[q]ue Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas o absoluto cinismo intelectual" dele. Disse também que "[a]s insolências reaccionárias da Igreja Católica precisam de ser combatidas com a insolência da inteligência viva, do bom senso, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só têm interesse no poder".[7]

Afirmando ainda que a Igreja não se importa com o destino das almas e que sempre procurou apenas controlar os seus corpos, e que o pouco compromisso dos escritores e intelectuais poderia ser uma das causas da crise da democracia, o escritor alertou que o fascismo está a crescer na Europa e mostrou-se convencido de que, nos próximos anos "atacará com força". Por isso, ressaltou, "temos que nos preparar para enfrentar o ódio e a sede de vingança que os fascistas estão a alimentar".[7]

Oposição da Igreja Católica

Por frequentemente fazer uso dos seus direitos fundamentais de liberdade religiosa e de liberdade de expressão, Saramago encontrou sempre fortes críticas e oposição na Igreja Católica, que não aceita o exercício dessa liberdade democrática de Saramago (daí o facto de ele se referir a esta como "fascista" com frequência). Os protestantes (ou evangélicos) já declararam publicamente apoiar a liberdade de expressão do autor.[8] E essa relação de tensão com a Igreja Católica é agravada devido à origem portuguesa de Saramago, local onde o catolicismo ainda é muito forte e discuti-lo ainda é um tabu.[9]

Devido a sua origem portuguesa e toda a influência cultural exercida pelo catolicismo em tal contexto, Saramago sente a necessidade de abordar a Bíblia no seu trabalho de escritor – esse texto faz parte do seu património cultural, ao contrário do Alcorão, que Saramago entende não ser a sua tarefa abordá-lo.[10]

A interpretação que Saramago faz da Bíblia é a de que ela é um "manual de maus costumes", cheio de "um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana", e que para uma pessoa comum a decifrar, precisaria de ter "um teólogo ao lado". E cita para sustentar isso os episódios de violência relatados na Bíblia, como sacrifício de Isaac, a destruição de Sodoma ou a vida de Job, por exemplo. Para Saramago, todos eles revelam que "Deus não é de fiar". E Saramago diz, sobre a necessidade ou não da exegese, que tem que "interpretar a letra" do texto – um processo que, na interpretação bíblica, é chamado de literalista.[10] E isso de modo algum impede que outra pessoa tenha a sua interpretação, ou que ele tente impor a sua interpretação como verdade como absoluta. Muito pelo contrário, ele até mesmo estimula a leitura bíblica: "Sobre o livro sagrado, eu costumo dizer: lê a Bíblia e perde a fé!", diz Saramago. Na verdade, ele apenas quer ter o direito de expressar a sua opinião.

Porém, Saramago não deixa de reconhecer que a "Bíblia tem coisas admiráveis do ponto de vista literário" e "muita coisa que vale a pena ler", estando, dentre elas, os Salmos, com páginas "belíssimas", o Cântico dos Cânticos, e a parábola do semeador contada por Jesus.[10]

A relação de tensão de Saramago com a Igreja Católica cresceu fortemente após a publicação do livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" em 1991, que foi adaptado para o teatro em 2001. O livro foi motivo de fortes críticas por parte de católicos que se consideraram ofendidos pela leitura secular que Saramago faz da personagem Jesus.[11][12]

É até por isso que, quando uma jornalista lhe perguntou porque sentia essa necessidade de esmiuçar a Bíblia, Saramago disse: "Não se ponha na posição da Igreja, de que não se toca na Bíblia."[10]

A Igreja Católica não gostou da atribuição do Prémio Nobel a Saramago e publicou no diário do Vaticano, L'Osservatore Romano: “Saramago é, ideologicamente, um comunista inveterado”.[13]

O lançamento do livro Caim (2009) voltou a suscitar "incompreensões, resistência, ódios velhos", conforme Saramago. "Desperto muitos anticorpos em certas pessoas", acrescenta, acusando várias vezes responsáveis da Igreja Católica (mas não protestantes ou judeus) de terem comentado o livro que ainda não leram – de facto, as pessoas foram instadas a comentar as declarações sobre a Bíblia, feitas por Saramago.[10]

E, realmente, após o lançamento de Caim, várias vozes católicas se insurgiram contra Saramago. Ele foi acusado (como se ele fosse um "herege", e não um escritor) pelo padre José Tolentino Mendonça, director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, de fazer uma leitura ingénua, ideológica e manipuladora da Bíblia. O bispo do Porto, D. Manuel Clemente, afirmou que José Saramago "revela uma ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas" e, como "exigência intelectual, deveria informar-se antes de escrever". Já o director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa, Peter Stilwell, considera que "seria espantoso" que José Saramago encontrasse algo divino na Bíblia e sublinhou que o escritor escolheu o fratricida Caim e não Abel, a vítima. Tal director que condena Saramago por ter escrito sobre Caim, deve também desaprovar tanto Byron quanto o também Nobel John Steinbeck (que trata a personagem de Caim em A Leste do Paraíso - East of Eden) por terem escrito sobre tal personagem.

O teólogo Anselmo Borges inicialmente afirmou que Saramago fez uma leitura "completamente unilateral" da Bíblia, que tem, como qualquer livro, de ser lida como um todo.[14] Mais tarde, tal teólogo declarou ter opinião formada sobre Caim: "Gostei do livro e até digo que é importante." Dá três razões para justificar a sua opinião: a "Bíblia é um livro aberto; há liberdade de interpretação e obriga os crentes a reflectir".[9] Para o biblista Fernando Ventura, José Saramago tinha a exigência intelectual de se informar antes de escrever. O religioso capuchinho referiu que "a Bíblia pode ser lida por alguém que não tem fé, mas supõe alguma honestidade intelectual de quem o lê", e acusou Saramago de "uma falta gigantesca" dessa honestidade.

Sobre tais opiniões, Saramago, com sarcasmo, disse: "Dizem que li a Bíblia com ingenuidade porque é necessário fazer uma interpretação simbólica, ou seja, aquilo que ali está escrito não tem sentido por si. E levou mil anos a ser escrito!"[15] Ainda sobre a alegação de "ingenuidade", respondeu: "Abençoada ingenuidade que me permitiu ler o que lá está e não qualquer operação de prestidigitação, dessas em que a exegese é pródiga, forçando as palavras a dizerem apenas o que interessa à Igreja. Leio e falo sobre o que leio".[16]

Essas críticas confirmam também a opinião de Saramago de que muitos que comentaram o livro ainda não o leram – isso está explícito no próprio teor das críticas.

É também por esses comentários que Saramago diz que os católicos "não leem a Bíblia".[17]

Devido aos acontecimentos, em uma conversa com o teólogo católico José Tolentino de Mendonça no final de outubro de 2009, Saramago declarou: "A mim, o que me vale, meu caro Tolentino, é que já não há fogueiras em São Domingos".[18]

Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, que em abril de 2009 já havia afirmado que "os estudiosos católicos não podem interpretar a Bíblia de uma maneira independente, nem de um ponto de vista científico ou individual",[19] após o episódio ocorrido no lançamento de Caim voltou a afirmar publicamente que apenas a Igreja Católica pode interpretar a Bíblia.[20]

Perseguição religiosa de católicos a Saramago

Após ter enfrentado forte perseguição religiosa com o lançamento do livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" em 1991, o que culminou com a sua mudança de Portugal para a Espanha pouco depois,[21] o lançamento de Caim em 2009, mesmo em pleno século XXI, voltou a render-lhe mais perseguição religiosa.

Saramago sofreu perseguição tanto por parte de membros da Igreja Católica, quanto de católicos. O eurodeputado Mario David, por exemplo, falando em nome pessoal e assumindo-se católico não-praticante, disse ter vergonha de ser compatriota do escritor, e escreveu no seu blog da Internet, tendo-o repetido depois aos meios de comunicação, que Saramago devia renunciar à nacionalidade portuguesa[22] (apesar de tais declarações, o escritor esclareceu que jamais pensou em abandonar a cidadania portuguesa[23]).

A eurodeputada Edite Estrela declarou que tais palavras de Mario David são inquisitórias.[24]

Sousa Lara, o Sub-Secretário de Estado adjunto da Cultura de Portugal em 1991, que então vetou o livro de Saramago O Evangelho segundo Jesus Cristo de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio literário europeu, um dos motivos que ocasionaram a mudança de Saramago de Portugal na época, por considerar tal ato censório, em outubro de 2009 comparou Saramago com Berlusconi (político direitista italiano conhecido por sua fé católica[25][26][27][28][29] – ele já até mesmo vetou publicação de livro de Saramago na Itália chamando a obra de "anticatólica", o que rendeu uma resposta de Saramago que disse que "O Estado de Berlusconi é católico e reaccionario"[30]–, um quase que oposto de Saramago), sugerindo que ele deveria receber uma punição (não apenas divina) pelo que foi escrito em Caim, declarando o que segue:

"Este senhor atingiu, não se percebe muito bem porquê, um patamar de impunidade que a humanidade concede, tipo Berlusconi. Há umas pessoas que podem dizer tudo, que podem fazer as coisas mais absurdas e as pessoas habituam-se a isso e não levam a mal. Só tenho pena que não enxovalhe, da mesma forma que enxovalhe o património católico, por exemplo os muçulmanos, porque esses não perdoam e vergam-lhes pela pele. Aí é mais difícil insistir muito numa gracinha reiterada contra a religião muçulmana. Calculo que depois não lhe corra bem o futuro depois".[31]

O poeta Manuel Alegre, sobre tais acontecimentos, declarou: "Isto é uma história portuguesa cheia de preconceitos e fantasmas. Em primeiro lugar é preciso ler o livro de José Saramago. Ele é um grande escritor, mas parece que não se perdoa a Saramago, ser um grande escritor da língua portuguesa, ser um Prémio Nobel e não ser um homem religioso". "Ele escreveu um livro, mas não vejo ninguém discutir o livro. Só vejo discutir as opiniões que com todo o direito ele expressou sobre a Bíblia". Conforme questiona Alegre, "[a]s pessoas podem não estar de acordo com aquilo que ele diz, mas como é que se pode pôr em causa a seriedade de um homem que diz aquilo que pensa". Ele considera tais acontecimentos como "um preconceito" e "resquícios de dogmatismo". "Não lhe podem negar o direito de escrever um livro e também não se pode crucificar o Saramago por exprimir as suas opiniões e menos ainda por ser um grande escritor, e menos ainda por ser um Prémio Nobel". Finalizando, disse que "ao Saramago não se perdoa ser um português que se atreveu a ganhar o Prémio Nobel da Literatura e que diz que não acredita em Deus".[32]

Devido a tais acontecimentos, Saramago chegou até mesmo a propor dois novos direitos à Declaração Universal dos Direitos Humanos: o direito à dissidência e à heresia[23] (que, na verdade, já estão contidos no artigo XVIII de tal carta que expressa que "[t]oda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião", e no artigo XIX, também da DUDH, que expressa que "[t]oda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão", bem como dentro do direito de liberdade religiosa quando expresso na Constituição de um Estado Laico, como é o caso de Portugal e do Brasil, embora muitas pessoas não tenham consciência disso devido a postura da Igreja Católica e da imprensa em tais países - algo que confirma essa afirmação é o facto de um jornalista chegar a declarar, em clara oposição a uma ideia de democracia, que "[s]ó quem acredita que a Bíblia tem alguma relação com a palavra de Deus está habilitado para sobre ela fazer considerações éticas".[33] Claramente, não é necessário acreditar em um "poder ético" daquele livro para poder criticá-lo, basta ter consciência dos seus efeitos sociais, e isso afeta a todos, inclusive quem é ateu como Saramago. Conforme o próprio Saramago declarou, "como não sou inteiramente burro, ganhei muito cedo a consciência do peso da religião na vida humana. E como, depois, quando se entra em leituras históricas e se encontra com o desastre, digamos, do alargamento da influência do cristianismo, que isso custou cidades destruídas, milhares de pessoas mortas, assassinadas, degoladas, queimadas… As Cruzadas foram qualquer coisa que a Igreja devia pedir perdão!"[34]).

Em entrevista quando da publicação do livro Caim em 2009, o entrevistador observou que o livro havia sido publicado em Portugal, no Brasil e em Espanha, países maioritariamente católicos, e perguntou se Saramago achava que essa reacção iria continuar. Saramago, respondeu o seguinte: "Não, em Espanha, não. Publicou-se lá recentemente um livro do Fernando Vallejo, La puta de Babilonia, que se fosse eu a escrever aquilo cá em Portugal tinham-me dependurado num desses candeeiros da avenida. É de uma violência de denúncia e de crítica que é um autêntico bota-abaixo".[34]

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Committed



Domingo comecei a ler Committed. Um livro de Liz Gilbert, mesma autora de "Comer, rezar, amar".
Assumo um novo desafio: Ter a paciência de terminar o livro em inglês!
Fui "forçada" a compra-lo assim, pois ele ainda não foi traduzido para o português.
Espero que seja tão bom quanto "Eat, pray, love" e que não confunda a cuca de uma mulher semi casada, como "comer, rezar, amar" tentou.

domingo, 13 de junho de 2010

Não somos racistas!

Terminei de ler hoje "Não somos racistas" de Ali Kamel. O livro é bem maneiro, tem uma linguagem fácil e não é massante. Apesar de não ter uma opnião totalmente formada, afinal tudo se transforma, inclusive as idéias, não consegui concordar com algumas coisas e, algumas dúvidas ainda surgem em minha cuca.
Ali expõe sua opinião baseando-se em dados e estudos, porém deixa muito claro seu contra e a favor sobre o preconceito "racial".
Concordo com a tese de que raça humana não existe, portanto não existe preconceito racial. O que existe no Brasil é classismo não assumido, que gera o ódio entre as etnias. O ódio gerado através da política de cotas e benefícios. O autor deixa claro que as estatísticas que favorecem o sistema de cotas são totalmente manipuladas e maquiadas. A "raça" negra em que aparece em pesquisas, refere-se a soma de negros e pardos, onde a porcentagem de pardos sempre prevalece, o que faz a situação dos negros (nesses casos negativa) parecer pior. Por exemplo, um gráfico demonstrando a porcentagem de negros pobres sem acesso ao estudo é de 9% (em uma escala de 0 a 10, somente como exemplo, pois já nem lembro os dados corretos apontados no livro) e de brancos 1%, porém dentro dos 9% de negros existem 7% de pardos, relatados como negros. Analisando a pesquisa, pode-se chegar a conclusão que realmente os negros precisam de cotas, porém os pardos não se beneficiam das cotas nas universidades, pois não são negros, e as cotas foram criadas para essa "raça". Ou seja, no Brasil os pardos apontados como negros em dados a favor das cotas, mas não podem se beneficiar delas.
Entre essas, estão outros assuntos bem interessantes no livro, como o programa de bolsas, auxilio invalidez, aposentadoria, etc.
O ideal do livro é bem bacana, e curti bastante o assunto porque nunca tinha parado para analisá-lo. Realmente, o problema do Brasil não é o preconceito racial, mas sim a educação e o classismo. Os negros sempre são apontados como maioria nas estatísticas negativas (sejam elas de ensino, emprego, etc), mas porque eles (negros e pardos) fazem parte da grande maioria da população pobre. Então realmente o governo precisa pensar e agir a favor de uma classe, mas dos pobres (sejam eles brancos, negros, pardos, amarelos..) e não dos classificados negros.
A única coisa que me intriga é: Por que os negros e pardos ainda consistem na grande maioria de pobres? Essa resposta não consegui encontrar no livro. Consegui concordar com 90% das idéias do livro, mas o que ainda me deixa intrigada é isso; Se os negros e pardos, ainda são maioria pobres, por que isso acontece?
Ali deixa claro que sistema de cotas não é a solução para nosso país, pelo contrário, a partir daí os brancos e etnias não favorecidas, citando os pobres, desenvolveriam um ódio pelos negros, por estarem na mesma situação sócio-econômica e não poderem ser beneficiados pelo mesmo sistema. Ali cita vários exemplos no livro, que eu o aconselho a ler, onde podemos constatar que realmente, não existe raça negra ou branca, e que em nosso país, não se pode saber se você é realmente branco, ou realmente negro; porque somos uma nação miscigenada. Meu pai é branco, descendente europeu, mas minha mãe tem descendência negra e índia.
O livro é contra aqueles que nos querem tornar uma nação bicolor, ou seja, o que não é branco é negro e vice-versa. Querem extinguir os índios, amarelos, mulatos, mamelucos, pardos e toda a infinidade de descendências que o Brasileiro, com todo seu charme tem.
Realmente, o sistema educacional é nosso maior problema, o que impede o crescimento sócio-econômico e o que impera no crescimento dos pobres, sejam eles negros ou brancos, e acima de tudo, diminuiu o acesso a informação. A informação que leva o ser humano, ao seu direito como cidadão.

Fica a dica do livro, que é fininho e pode ser lido rapidinho.

"As discriminações não serão nunca "efetivamente" raciais, porque raças não existem: as discriminações serão sempre efetivamente "odiosas", "irracionais", "delirantes", "criminosas". Elas só seriam "efetivamente" raciais se a motivação da discriminação estivesse calcada em uma realidade - a existência de raças humanas -, e não numa crença irracional."

"..., raça é um conceito social, não um conceito científico."

Não somos racistas, de Ali Kamel.
Editora Nova Fronteira
ISBN 85.209.1923-5

sábado, 12 de junho de 2010

Beggining

Bom, há algum tempo venho pensando nessa história de blog. Tenho todas aquelas geringonças da internet como: Orkut, Facebook, Fotolog, MSN e assim vai...
Acho legal esse lance de poder postar o que pensa e dividir experiências e dicas, então pensei: Por que não ter um espaço onde eu possa postar sobre o que amo fazer: ler!
Além disso, bom é ter o espaço para pedir dicas, aprender, mostrar, dividir, esclarecer e perder o tempo!
Assim que me veio a mente essa história de blog (além de mim) sobre livros, logo pensei é claro, na música do saudoso Tim: Leia o livro! Apesar de ainda não ter lido "Universo em desencanto", me amarro no som e é claro, no Tim. Mas para minha tristeza, o nome já havia sido utilizado, então dei aquele toque especial e dei um gritinho pra você: Ei!

Começo hoje mais um login e senha, nesse mundo gigante sem fim, que é a "internéti"!

Prazer, meu nome é Fernanda e...
...boas vindas para mim!

Bejim